Mark to Market

Mark-to-Market e sua importância – Um guia completo

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Os mercados turbulentos e voláteis em que navegamos hoje em dia apresentam muitos desafios aos investidores e traders. Entre os principais deles está a crescente dificuldade de garantir uma representação justa do valor dos portfólios. O mesmo ocorre com a precificação de constituintes separados, incluindo ações, contratos futuros e outros ativos. Para resolver esse problema, o mundo financeiro adotou a metodologia Mark-to-Market (MtM). Este guia analisa os benefícios que o Mark-to-Market traz para traders de derivativos comuns e institucionais. Veremos como esse processo funciona e como ele afeta o valor dos ativos.

O que é Mark-to-Market?

O Mark-to-Market é um método de medição de valores sujeitos a oscilações periódicas que fornece uma representação justa do ativo ou do estado atual da entidade.

Hoje em dia, o Mark-to-Market é utilizado em investimentos (ações, contratos futuros, fundos mútuos) e na contabilidade de empresas (ativos e passivos).

No trading, nós o usamos para refletir melhor o valor de mercado atual de um ativo, conta ou portfólio em vez de seu valor contábil. Para isso, ele ajusta o valor do instrumento ou da conta de acordo com a volatilidade atual e o desempenho do mercado. O objetivo é fornecer uma representação mais justa da saúde do portfólio. Por exemplo, se eventos recentes do mercado levarem a conta a ficar abaixo do nível mínimo exigido, o trader recebe uma chamada de margem. No contexto de fundos mútuos, o Mark-to-Market é usado diariamente para ajudar a fornecer uma ideia melhor do valor patrimonial líquido (NAV) dos fundos.

Para fins contábeis, o Mark-to-Market ajuda a fornecer uma representação mais transparente do valor atual dos ativos e passivos da empresa com base nas condições de mercado atuais.

Qual é a origem do Mark-to-Market?

A metodologia Mark-to-Market foi introduzida pela primeira vez no século 19 nos Estados Unidos, sendo uma prática comum entre os contadores na época.

No entanto, após algum tempo, muitos passaram a atribuir ao MtM os pré-requisitos para a Grande Depressão, a instabilidade do sistema econômico e o colapso em massa dos bancos. Em 1938, seu uso foi descontinuado, mas ele voltou a ser usado na década de 1980.

Mais uma vez, sua trajetória também não foi tranquila, e a crescente popularidade da metodologia ajudou a expor seus problemas. Quando as corporações e bancos começaram a aplicar o Mark-to-Market, eles logo começaram a encontrar fragilidades no modelo, tornando-o vulnerável a fraudes contábeis, principalmente quando o valor real do ativo não pode ser determinado objetivamente. Um exemplo é o caso dos futuros de petróleo bruto, em que o preço do instrumento deriva de outra commodity.

Um grande exemplo de aplicação indevida do Mark-to-Market a princípios contábeis foi o maior escândalo da história corporativa: a queda da Enron.

Depois desse caso, os órgãos reguladores introduziram mudanças no Mark-to-Market, incluindo a implementação de padrões contábeis mais rígidos, relatórios financeiros mais explícitos, auditoria independente, controles internos mais robustos, etc.

Atualmente, o Mark-to-Market é uma metodologia oficialmente reconhecida e amplamente adotada para monitorar o valor justo e real das contas e a situação financeira atual de uma entidade ou um indivíduo.

Por que o Mark-to-Market é necessário?

Ter um método como o Mark-to-Market é necessário para evitar que ocorram manipulações de mercado. Além disso, ele serve para garantir o máximo de transparência, representando de forma justa o valor real de um ativo ou conta ou a situação financeira da empresa a qualquer momento.

Pensando bem, poderíamos dizer que o principal problema das informações de mercado é a sua relevância. Os participantes do mercado muitas vezes contam com dados históricos e desatualizados para fazer avaliações ou previsões para o período atual ou um período futuro. Durante momentos de alta volatilidade ou dinâmicas de mercado como as que temos vivido nas últimas duas décadas, as informações do mercado devem ser adequadas e atualizadas.

É por isso que o Mark-to-Market foi introduzido. Foi uma alternativa à popular metodologia de contabilidade de custo histórico, em que o valor de um ativo se baseava no seu custo de compra original. É evidente que esse tipo de avaliação não fornece uma representação justa do estado atual do ativo ou entidade em questão. Além disso, ele não é capaz de calcular com precisão quanto o ativo custa hoje, já que as informações estão desatualizadas, sendo irrelevantes para o ambiente de mercado atual.

No entanto, se nos concentrarmos nas razões específicas pelas quais o Mark-to-Market é necessário, uma delas se destaca: ele evita o acúmulo de risco excessivo para uma entidade, conta de trading ou carteira específica.

Ao ter acesso a informações justas e precisas quanto ao estado de um ativo ou entidade, os participantes do mercado podem prever melhor sua trajetória futura.

Como o Mark-to-Market funciona?

O Mark-to-Market funciona de maneira diferente de acordo com o seu caso de uso. Vamos dar uma olhada em alguns exemplos.

No setor financeiro, sempre há o risco de inadimplência, e quando isso ocorre, o empréstimo deve ser classificado como ativo inadimplente ou crédito incobrável. Nesse caso, a empresa deve estabelecer uma conta separada (contra-ativos) que reduz o valor de seus ativos, e o Mark-to-Market ajuda a fazer isso de maneira justa e precisa.

No contexto de empresas que vendem mercadorias e oferecem promoções ou descontos para recolher rapidamente as contas a receber, o Mark-to-Market exige o registro de crédito na receita de vendas e débito em contas a receber. Os valores são baseados no número estimado de clientes com maior probabilidade de usufruir do desconto.

Em práticas contábeis pessoais, o valor de mercado de um ativo é considerado igual ao seu custo de reposição. Por exemplo, o seguro da sua casa ou veículo geralmente inclui o valor que seria necessário para reconstruir ou consertar.

Quando se trata de ativos, a metodologia Mark-to-Market exige o uso do valor justo em vez do valor contábil. Por exemplo, as ações na sua conta de corretagem são avaliadas no final de cada dia. O mesmo ocorre com contratos futuros e fundos mútuos, cujo valor é calculado no encerramento do pregão.

​Vantagens e desvantagens do Mark-to-Market

Como qualquer outra métrica ou metodologia no mundo financeiro, o Mark-to-Market não é perfeito. Embora ajude a superar alguns problemas, ele também apresenta dificuldades em algumas situações. Vamos conferir as principais vantagens e desvantagens para entender melhor o quão confiável é o Mark-to-Market:

​Vantagens

  • Reflete o valor real de um ativo

O valor do ativo é baseado no ambiente de mercado atual, o que o torna genuíno e representativo. Ele não depende do histórico ou de dados que possam não ser relevantes para a situação atual e fatores que podem afetar o valor da conta ou dos ativos.

  • Reduz os níveis de risco dentro de uma carteira ou entidade

O Mark-to-Market pode servir como um sistema de alerta em tempo real para riscos de inadimplência ou insolvência. Ele pode alertar se o estado atual do portfólio da empresa é bom o suficiente para justificar os investimentos ou prever o desempenho futuro e a exposição a condições de mercado desfavoráveis.

  • Benéfico para todos os lados que o adotam

O Mark-to-Market traz vantagens em níveis micro e macro. As corretoras, por exemplo, podem acompanhar os saldos das contas de seus clientes e evitar casos de inadimplência. Por outro lado, os investidores podem tirar proveito do trading com margem, o que é muito mais fácil de monitorar e controlar a partir da metodologia Mark-to-Market.

Com bancos, empresas de venda de produtos, organizações financeiras, auditores e órgãos reguladores, a metodologia Mark-to-Market fornece um procedimento unificado para acompanhar o estado atual das entidades e sua saúde financeira de forma justa e transparente.

Desvantagens

  • Pode ser impreciso durante períodos de volatilidade

A volatilidade tende a levar os mecanismos de precificação além dos seus limites. Quanto mais oscilações e quanto maior elas forem, mais distorcida e instável será a carteira ou a estimativa de valor do ativo.

  • Não é capaz de contextualizar as informações

Embora isso não seja necessariamente uma desvantagem substancial, a verdade é que o Mark-to-Market não diz como o preço foi formado no fechamento do pregão. Ele não é capaz de revelar se houve um fluxo significativo e repentino de compradores e vendedores, quais mudanças foram vistas durante a sessão de trading, quais condições de mercado estavam envolvidas nesta formação de preço, etc.

  • Dependência do momentum, o que pode prejudicar as avaliações durante períodos de crise econômica

As empresas que são forçadas a calcular os preços de venda de seus ativos –– como bancos com empréstimos inadimplentes que acionam procedimentos de insolvência – durante períodos de crise econômica, baixa liquidez ou incerteza do mercado podem esperar avaliações desfavoráveis, geralmente mais baixas do que o valor real.

​Exemplos de Mark-to-Market

Imagine que você possui 20 ações da empresa ABC, compradas por US$5 cada. Atualmente, ela é negociada a US$6 por ação. O Mark-to-Market é igual a US$120 (20 ações x preço atual de US$6). Por outro lado, se o preço da ação cair para US$4, a avaliação do Mark-to-Market será igual a US$80, portanto o investidor terá uma perda não realizada de US$20.

Se você estiver usando o método do valor contábil, a estimativa exigiria um cálculo com base no preço no momento da compra, multiplicado pelo número de ações adquiridas. Obviamente, o Mark-to-Market é um método muito mais preciso que o valor contábil.

O Mark-to-Market no trading de futuros

Suponha que você seja um trader de futuros e esteja fazendo seu primeiro depósito com a Bolsa de sua preferência. Os fundos depositados são usados como “margem” ou proteção para a Bolsa contra perdas potenciais. Pense na margem como um limite que você não deve ultrapassar.

No final de cada dia – ou duas vezes por dia, como acontece com Bolsas como a CME –, os contratos futuros em sua carteira são avaliados de acordo com seu valor de mercado atual por meio do Mark-to-Market. Se a evolução do mercado for favorável, você estará do lado vencedor; logo, o valor da sua conta aumentará à medida que a Bolsa lhe pagar os lucros. Por outro lado, se seus contratos futuros se desvalorizarem, você sofrerá perdas, portanto a Bolsa descontará da margem depositada na sua conta.

Se a perda for severa e o valor de sua conta ficar abaixo do requisito de margem mínima, você receberá uma chamada de margem. A chamada de margem é quando a Bolsa exige que você deposite fundos adicionais para cobrir a exigência de capital mínimo; caso contrário, você ficará inadimplente.

​Exemplo de Mark-to-Market no trading de futuros

Aqui está um exemplo prático de como o Mark-to-Market é aplicado em contratos futuros. Como acontece com qualquer outro instrumento, o trading de contratos futuros requer dois lados: um comprador e um vendedor. Se o preço do contrato subir no final do dia, o valor da conta do comprador aumenta, enquanto o valor das contas vendidas diminui, e vice-versa.

Digamos que você esteja interessado em operar trigo e queira se proteger contra a queda dos preços da commodity subjacente. Se você decide vender cinco contratos (um contrato = 5.000 bushels) a um preço atual de US$4, então operação será igual a US$100.000.

Aqui está a matemática por trás da operação e como os preços baixos afetarão o saldo da sua conta:

DiaPreço FuturoVariaçãoGanho/PerdaGanho/Perda CumulativaSaldo da Conta
1US$4,00US$100.000
2US$4,05+0,05-1.250-1.250US$98.750
3US$4,03-0,02+500-750US$98.000
4US$3,96-0,07+1.750+1.000US$99.000
5US$3,93-0,07+1.750+2.750US$101.750

Como você pode ver, cada queda no valor do contrato futuro de trigo resulta em um aumento no saldo da sua conta e vice-versa.

O processo de cálculo do Mark-to-Market continua até a data de vencimento do contrato futuro ou até que você decida fechar sua posição.

​O efeito de investidores institucionais

O trading de futuros não acontece apenas nas Bolsas tradicionais. Instituições e investidores de grande porte preferem operar derivativos no mercado de balcão (OTC). No entanto, o caso do trading de derivativos OTC é muito mais complicado. Nesses mercados, o preço não é regulado pela plataforma de trading, sendo negociado diretamente entre compradores e vendedores. Isso significa que você não pode determinar objetivamente ou obter o preço de mercado imediatamente. Além disso, o preço também deve incluir a quantificação da inadimplência ou “risco de não pagamento”. Para navegar melhor, os participantes do mercado usam modelos computacionais sofisticados que podem fornecer informações de preços relativos que, na maioria das vezes, estão próximos dos preços que pagarão no final.

Em suma, com o trading de futuros, o Mark-to-Market visa a eliminar o risco de crédito. No entanto, sua aplicação adequada requer o envolvimento de Bolsas ou investidores institucionais operando no mercado de balcão, pois apenas investidores de grande porte podem pagar pelo uso dos sofisticados sistemas de monitoramento necessários.

Como isso afeta o seu trading?

O grande impacto do Mark-to-Market nas suas operações é que ele fornece mais flexibilidade e maior poder de compra a partir do trading com margem. Dessa forma, ele permite que você capitalize as oportunidades existentes, investindo mais do que possui atualmente.

Por exemplo, suponha que uma notícia importante está prestes a sair e você acredita que ela terá um grande efeito positivo no preço do TSLA, AAPL, CL ou qualquer outro instrumento. Nesse caso, você pode obter “crédito” da corretora ou Bolsa em questão e comprar mais do que realmente pode pagar. A margem varia de acordo com o fornecedor de crédito e o instrumento operado.

Tenha em mente que o trading com margem é uma faca de dois gumes: embora possa ser muito lucrativo, essa modalidade também pode representar um risco significativo, já que as perdas se multiplicam. Isso significa que uma única decisão errada ou um movimento de mercado no sentido contrário da operação podem fazer com que todo o saldo da sua conta seja consumido.

No entanto, quando aplicado com cautela e por traders experientes, o trading com margem pode ajudá-lo a acumular ganhos significativos. Uma oportunidade como essa só existe graças à metodologia Mark-to-Market.

O Mark-to-Market fora do trading de derivativos

As corretoras usam o Mark-to-Market em outros tipos de atividades de trading, como ações e opções, para conceder aos investidores acesso a contas de margem. Além disso, ele também serve para permitir que os traders tomem fundos emprestados e operem a crédito para multiplicar seu poder de compra.

O Mark-to-Market é usado para avaliar o requisito de margem de garantia (colateral) que o trader possui para poder operar a crédito. Em troca dessa oportunidade, o trader tem a obrigação de pagar juros e manter o saldo da conta acima do limite mínimo. O processo é semelhante aos empréstimos bancários.

O Mark-to-Market é calculado no final do dia de trading. Se o valor ficar abaixo do limite definido pela corretora, o trader recebe uma chamada de margem; se ele não depositar fundos adicionais, sua conta é liquidada.

O Mark-to-Market em contabilidade

Em contabilidade, a metodologia Mark-to-Market substituiu o método do custo histórico, já que fornece uma representação mais precisa e relevante da saúde financeira atual de uma entidade.

O custo histórico é um princípio de contabilidade que usa o custo de compra original para calcular o valor dos ativos. Enquanto isso, a metodologia Mark-to-Market se concentra em seu valor atual. Seu cálculo se baseia nas condições de mercado predominantes.

Isso nos ajuda a entender por que o Mark-to-Market é muito mais eficiente e preciso. Ele revela o valor real pelo qual você pode operar esses ativos hoje, e isso ocorre porque ele não se baseia em informações desatualizadas de anos atrás.

Isso não quer dizer que o Mark-to-Market seja a metodologia perfeita. Pelo contrário – ele foi o cerne do maior escândalo corporativo da história moderna.

​Escândalo Enron

Durante a década de 1990, a Enron usou o Mark-to-Market para explorar uma brecha do modelo e registrar um alta nos lucros em seu negócios envolvendo gás natural. Após a assinatura dos contratos de longo prazo, a empresa estimou a receita com base no valor atual do fluxo de caixa futuro líquido. No entanto, isso resultou na criação intencional de discrepâncias entre o capital e os lucros relatados. No final, os investidores estavam recebendo relatórios com valores falsos.

O Mark-to-Market permitiu que a Enron registrasse receitas que nunca haviam sido recebidas com o objetivo de aumentar o lucro financeiro da empresa e aumentar o preço das ações. No entanto, isso gerou uma bola de neve. Esse processo forçou a empresa a relatar ganhos cada vez maiores ao longo do tempo para manter uma taxa de crescimento estável. O final dessa história é bem conhecido de todos.

Em 2002, as agências introduziram diversas mudanças regulatórias necessárias para melhorar as normas de contabilidade.

Em 2009, foi resolvido outro problema com a metodologia Mark-to-Market. O problema tinha relação com os títulos garantidos por hipotecas (MBS) que os bancos detinham em montantes excessivos durante a crise financeira. Como os mercados para esses instrumentos já haviam desaparecido, os ativos nos livros dos bancos não podiam mais ser avaliados com precisão. Portanto, o Financial Accounting Standards Board (FASB) teve de introduzir novas diretrizes, permitindo que as entidades de mercado avaliassem os preços com base no que teriam recebido em um mercado equilibrado, e não durante uma crise ou liquidação forçada.

Depois disso, não houve nenhum grande problema relacionado ao processo contábil do Mark-to-Market.

Considerações finais

O Mark-to-Market é uma engrenagem crucial na mecânica dos mercados atuais. Essa metodologia ajudou a transformar a forma pela qual operamos e como as empresas relatam seus resultados financeiros. Além disso, contribuiu para melhorar a estabilidade do sistema financeiro, reduzindo o risco de inadimplência e garantindo processos de supervisão e controle mais transparentes.

Embora você não tenha que lidar com o termo Mark-to-Market diariamente, vale a pena entender o que é e por que essa metodologia de avaliação de ativos é tão essencial para o bem-estar dos traders, investidores institucionais, organizações financeiras e participantes do mercado em geral.

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